domingo, 15 de outubro de 2017

Carta a uma diocese dividida


Dividir para conquistar!

Reverendíssimos pastores da Igreja de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que foi comprada a preço de sangue no Calvário, eu, mísero leigo que perfila as centenas de fiéis da Diocese, gostaria de que me concedessem uns minutinhos da atenção dos senhores. Antes de qualquer coisa, peço-lhes a bênção paternal.

Também é importante dizer que sou um “vermezinho” (Jó 25, 6), desprovido de virtudes e quaisquer excepcionalidades espirituais e os padres que me atenderam em confissão podem comprovar isso. Mas, apesar de minha miséria, gostaria de fazer algumas observações sobre a realidade paroquial/diocesana e, que, talvez pelos senhores ocuparem a hierarquia, não têm condições de perceber alguns episódios.

É conveniente afirmar também que todos os casos aqui descritos são verídicos e que não decorrem só da minha observação, mas de situações concretas que me foram narradas por amigos. Não citarei os nomes dos leigos, tampouco dos padres envolvidos. De antemão, não se trata de algum escândalo, mas de atitudes pastorais.

O título que dá início à carta é uma máxima antiga atribuída ao imperador César (divide et impera), todavia está presente nos Evangelhos quando o Mestre foi acusado de expulsar demônios pelo poder de Belzebu e Ele contestou assim: “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído” (Mt 12, 25).

Guardadas as proporções, essa passagem se aplica às realidades das comunidades eclesiais de base. Por quê? Porque a pregação do Evangelho foi terceirizada e, em muitos locais, as pessoas preferem ir às celebrações da Palavra às missas. Chegou-se a uma deturpação completa. O sacrifício incruento de Nosso Senhor foi trocado por um “congraçamento de leigos”. E uso a palavra congraçamento de modo proposital, pois as músicas usadas em muitas celebrações recordam bailes pela agitação. É a “animação” que querem forçosamente fazer com que aconteça nesse momento. Imaginem as santas mulheres, Santa Maria Madalena, a Virgem Maria e o São João (Jo 19) dando gargalhadas e dançando durante a Crucifixão do Senhor? Palmas e, em alguns momentos, parece um forró bodó. Há tempo para cada coisa, diz-nos o Eclesiastes, e, sinceramente, a missa não deve ser esse rastapé. As músicas litúrgicas estão muitas vezes inadequadas. Só a título de exemplo, o Hino do Glória, o qual muitos mártires morreram cantando e que foi construído com todo um desenrolar bíblico, é substituído por vulgatas boçais, toscas e infantis e com ritmos ainda piores.

Volto às celebrações da Palavra. Por que elas se tornaram “terceirizações”? Eu sei que os senhores devem conhecer muito mais do que eu, a Instrução Redemptionis Sacramentum, destaco os parágrafos 164 e 167. Naquele afirma que “as celebrações dominicais especiais, devem ser consideradas ABSOLUTAMENTE extraordinárias”, o que nossa realidade se choca e desmente categoricamente. Na verdade, parece que houve um “entreguismo” e tudo foi sendo repassado aos leigos. É uma terceirização em razão de que o “serviço prestado” é, muitas vezes, de baixa qualidade. Os senhores passaram por uma formação exaustiva até se ordenarem e deveriam saber também que em encontros mensais não é possível fazer com que um católico mal evangelizado e mal catequizado assuma funções para dirigir a celebração da Palavra. E o pior, caríssimos pastores, muitos são MAL alfabetizados! Não sabem sequer ler direito! É triste, mas é verdade. O material que recebemos é recheado de erros de ortografia e fazem uma algaravia com o missal. É uma espécie de missal para leigos. Os pronomes mal escritos.

Mas isso é de somenos importância. O ponto central é o seguinte: na minha cidade, a título de exemplo, há comunidades muito próximas à Matriz. Questão de metros de distância. E, infelizmente, como abundam as celebrações no domingo devido ao excessivo número de comunidades, a missa fica prejudicada. Há alguns problemas nisso: em primeiro lugar, não cumpre o preceito dominical. Em segundo, o Reino fica dividido, porque imaginem vários núcleos de cristãos espalhados recebendo formação irrisória nas “homilias” feitas por leigos no lugar de estarem recebendo formação adequada de um sacerdote que passou anos em preparação. Em terceiro, como disse, rompe com a unidade paroquial, a impressão que passa é que a Igreja está cada vez mais enfraquecida quando, na verdade, não está, e sim, está dividida, presa fácil para o lobo (a ovelha que não ouve a voz do pastor com regularidade, não é ensinada pelo pastor qual senda deve trilhar, não está à mercê do lobo? Não é mais o pastor que ensina a ovelha, agora, são as ovelhas que por si mesmas têm que se ajudar na sobrevivência). Em quinto, as missas “paroquiais” não são suficientes para isso. É preciso que semanalmente as pessoas que tenham condições de irem à Matriz, façam-no. Em suma, padres, nós precisamos dos senhores! Não queremos que sejam trocados por leigos!

Em contrapartida, é preciso falar também que em alguns locais, as celebrações da Palavra são indispensáveis, principalmente, nas zonas rurais. Nós sabemos que os senhores são poucos como alertou o Mestre (Lc 10, 2). Mas na área urbana não há motivo para não ir até a Matriz. Andar um pouquinho não faz mal a ninguém e ainda funciona como penitência. Outra observação é que muitos objetariam dizendo que isso esvaziaria as comunidades e seria um dinheiro jogado fora etc., mas há como remediar isso. As comunidades funcionam bem para centros de catequese, reuniões para articulação das necessidades locais, para realizar as orações comunitárias, adorações, encontros etc. O padre pode celebrar Missa lá também como já existe esse costume. Há também a festa do padroeiro da comunidade.

Para concluir, saliento o parágrafo 167 da Instrução: “«De maneira parecida, não se pode pensar em substituir a santa Missa dominical com Celebrações ecumênicas da Palavra ou com encontros de oração em comum com cristãos membros de outras [...] comunidades eclesiais, ou bem com a participação em seu serviço litúrgico». Se por uma necessidade urgente, o Bispo diocesano permitir ad actum a participação dos católicos, vigiem os pastores para que entre os fiéis católicos não se produza confusão sobre a necessidade de participar na Missa de preceito, também nestas ocasiões, a outra hora do dia.”

Minha glosa: infelizmente, isso já aconteceu e acontece. Inúmeras vezes eu presenciei pessoas dizendo que estavam liberadas da Missa pela participação na Celebração. Mais uma vez: padres, nós precisamos dos senhores! Não nos deixem órfãos! Reúnam as ovelhas ao redor de si! Queremos ouvir as vozes dos pastores! Os berros das ovelhas devem ser escutados com moderação e quando não há outro meio. Em outras palavras, seria até melhor por ter o número de ministros da Palavra mais reduzido, a formação poderia ser mais presente e mais centralizada. Ao invés de fazer para uma multidão e ignorar as particulares deficiências de cada um (que são muitas!).

Outro ponto delicado se chama sacramento da confissão. Em geral, sucedeu um engano na Diocese. Muitos padres confundem a celebração desse sacramento com uma espécie de direção espiritual ou, na pior das hipóteses, terapia psicológica. Por isso, perdem horas a fio, às vezes, com uma pessoa. E as outras desistem de esperar. Uma coisa é uma coisa. A confissão é sumária. Apresentou-se diante do sacerdote, disse os pecados, ele deu orientação mais breve ainda e absolveu. Passou a penitência e pronto. Próximo!

A direção espiritual é muito importante e deve ocorrer em outro momento. Não se podem confundir as duas realidades. Outra questão é que as pessoas perderam a noção de pecado e, por isso, seria útil para salvação delas que fosse repassado um exame de consciência e lhes fosse ensinado como se confessar. Como a Igreja sempre tem feito. Simples assim. Já o padre que pensa que ali é uma terapia psicológica, o problema é outro e não cabe comentar aqui. Não se ensina mais que NÃO SE DEVE comungar em estado de pecado grave (§1415, Catecismo da Igreja Católica). O sacrilégio é uma ofensa terrível já advertido por S. Paulo (1Cor 11,29)

Padres, pelo amor de Deus, os senhores querem ser responsabilizados pelos sacrilégios que se recusaram a evitar? O juízo de Deus será severíssimo. Muito foi dado aos senhores, muito será exigido também (Lc 12, 48)! Não permitam que as pessoas comunguem em estado de pecado grave. Esse ensinamento é confirmado pela Bíblia, pela Tradição e pelo Magistério. Pouco importa se o teólogo A ou B diz diferente. A quem prestaram obediência? Em nome de Cristo, impeçam esses crimes contra o Corpo e o Sangue do Senhor!

Sobre a moral sexual, esse é um tema que ninguém quer sujar a imagem e, pois, evitam pregar nas homilias. Abandonem o respeito humano! O caminho da castidade é de vida! Eu, como leigo e solteiro, testemunho isso. É libertador! É para todo mundo: leigo e casado! Cada um nas suas condições, de acordo com seu estado de vida. Para isso, conheçam a teologia do corpo do Papa João Paulo II. Será muito mais fácil pregar sobre esses assuntos com o auxílio desse material. As pessoas aceitarão de forma mais fácil, pois trabalha como a teologia está radicada na própria realidade biológica delas. Sugiro um livro: “Teologia do corpo para principiantes: uma introdução básica à revolução sexual por João Paulo II”. Os senhores colherão os frutos da castidade! Ensinem o correto e permitam que os jovens confessem seus pecados contra a pureza! Permitam que eles lutem pela castidade! A masturbação, seja masculina, seja feminina, é uma autosabotagem! E assim outros pecados sexuais: fornicação, adultério, homossexualismo (é um assunto delicado que foi exposto de modo autenticamente cristão em dois livros “Homossexualidade – guia de orientação para os pais” do Dr. Joseph Nicolosi e “Homossexualidade e esperança” do Dr. Gerard Van Den Aardeweg), incesto, pedofilia etc.

Mais uma vez: padres, nós precisamos dos senhores! Precisamos lavar nossas almas no confessionário! Ainda que caiamos mil vezes! Precisamos, padres! Deem-nos tempo! Tenham paciência com nossas fraquezas! Abram-se a esse sacramento! O santo cura d’Ars passava de 12 a 14 horas no confessionário, por que não querem o mesmo caminho? Querem descobrir a roda com um novo meio? Não! O caminho é o mesmo! Padres, por favor! Não virem as costas para nós! Suplicamos que gastem seus tempos conosco! Repitam quantas vezes for necessário: eu te absolvo dos seus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém! Não retenham o sangue de Cristo! Aspergi-o sempre e em todo lugar com esse sacramento salvífico! O mesmo se aplica ao sacramento da unção dos enfermos!

Sobre a confissão comunitária. Basta a leitura dos cânones 959 a 964 do Código de Direito Canônico para dar cabo dessa fuga que se dá dos fiéis de encararem o sacerdote e individualmente confessarem suas misérias (regra). Perigo de morte e necessidade grave são exceções tão remotas e extraordinárias que deveriam constranger tanto os fiéis quanto os padres.

A Igreja, ao mesmo tempo, que autoriza que o bispo estabeleça as condições (Cân. 961, § 1, n. 2), impõe um limite claríssimo: “não se considera existir necessidade suficiente quando não possam estar presentes confessores bastantes somente por motivo de grande afluência de penitentes, como pode suceder nalguma grande festividade ou peregrinação.” (Cân. 961, §2). Por exemplo, o que acontece na Quaresma. O certo seria fazer um mutirão de confissões chamando outros sacerdotes.

Passo adiante. Quero tratar dos pontos nefrálgicos. Passo agora às pastorais. Destaco a pastoral da juventude. O melhor meio é utilizar o YouCat. Ensiná-lo aos jovens. Temos SEDE da VERDADE que é Cristo! Precisamos de alimento sólido (Hb 5, 12)! Passou a época do leite da catequese! Chega de conversa mole! Acredito que o mesmo se aplique à pastoral familiar em alguma medida. Chega de conversa mole! Nossa Senhora em muitas aparições ensinou o método e serve para qualquer trabalho pastoral: cinco pedrinhas (de Davi) para derrotar o Golias (o diabo). Eucaristia, confissão, leitura da Bíblia, terço (rosário) e penitência. Já li muitos livros religiosos e, sem dúvida, tentei muitos métodos. Mas sempre volto a essas cinco pedras. Simples e eficaz como Maria é. Ela, na renúncia de si (escrava), ficou cheia de Deus. As pedrinhas são a base de todo cristão que procura se santificar. Ensinem isso aos leigos! Por favor, padres! Certamente, os senhores já vivem isso. Não guardem esses tesouros só para si! Se cada leigo colocar isso em prática, a realidade paroquial será mudada!

Bom, estou quase concluindo. Conto um episódio para dizer da importância da veste adequada para o sacerdote (batina ou/e clergyman). Soube de um padre da Diocese que foi a uma festa e, enquanto dançava, uma moça se insinuava para ele, porque segundo ela mal tinha ideia de que se tratava de um sacerdote. O padre não deu confiança e continuou sua dança de forma tranquila (ainda bem!). A moça ficou intrigada com aquilo e comentou com um parente: aquele homem ali não dá bola para mim. Já cansei de passar na frente dele e não quer dançar comigo. Até que esse parente disse: é um padre, mulher! Pare de assanhamento!

Embora a história seja engraçada, revela também a prudência das vestes ligadas ao estado de vida ao qual foram chamados. Usar as roupas adequadas facilitam a vivência dos propósitos feitos não só com o bispo na ordenação, mormente com o Senhor que pedirá contas. É como diz Santa Catarina de Sena: “todo bem será premiado e toda culpa será punida!”.

Por fim, peço que perdoem minha arrogância e presunção. Escrevo isso para o bem das almas, inclusive da minha! Não queiram construir só belas paredes, pintadas e ornadas, mas, antes, queiram que as almas dos fiéis estejam bem alicerçadas na Rocha que é Cristo! Não queiram só incensos e objetos litúrgicos caros, mas verifiquem se as almas dos fiéis, as quais lhes foram encarregadas, exalam o odor da santidade! O perfume suave da vivência dos mandamentos divinos e o suor das renúncias feitas!

Não queiram fazer só belos jardins, mas, antes, verifiquem se os vícios foram arrancados e as virtudes plantadas como convém ser aos filhos de Deus! Tudo isso pode soar arrogante, mas eu sei o meu lugar na Igreja, sou um mísero inseto (Is 41, 14), mas não levem em conta o pecador que escreve, e sim, o conteúdo narrado! Mais uma vez: padres, precisamos dos senhores! Novamente o povo passa fome e o Mestre tem compaixão. A nossa fome é outra. Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus. Temos fome e sede do ensinamento correto da Igreja de dois mil anos! Não de teólogos modernos que ultrajam o Magistério e a Tradição e que são cada vez mais populares nos seminários!

Espero que os senhores tenham a coragem de dizer como Dom Bosco: Dai-me almas e ficai com o resto! No final, o que importa é quantas pessoas se salvaram pelo trabalho dos senhores e, depois de uma vida de tormentos (Jó 7,1), possam ouvir da boca do manso e humilde Cordeiro, cujo fardo é leve e o jugo é suave, “servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor!” (Mt 25, 21).

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Quem é esta mulher?


Certa vez enquanto conversava com um amigo, que estudava Teologia para se tornar pastor, ele me fez uma pergunta simples e desconcertante. Ele queria saber se Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Aparecida eram a mesma pessoa. Ali ficou claro para mim que muitas disputas religiosas (católicos x protestantes) acontecem por conta da ignorância (não no sentido de "burrice", mas de não ter interesse de procurar entender mais a fundo o credo do outro).

O protestantismo nasce de "protestos" contra a Igreja católica por uma conjuntura muito desfavorável do início do século XVI. Vou copiar até uma expressão acadêmica... de uma confluência perversa, sobretudo na política alemã. Não quero tratar da "Reforma", embora até hoje seus efeitos permaneçam. A divisão da divisão, só que entre protestantes, e assim por diante.

Duas coisas que eu nunca vi, o que não significam que não tenham acontecido, não aconteçam ou não possam vir a acontecer, pois não sou o centro do universo. Nunca vi: um católico bem formado deixar a Igreja católica e um protestante que conhecesse a fundo o catolicismo para além da casca de clichês. Geralmente, o que se tem no atacado e no varejo são visões muito simplistas, interpretações equivocadas etc.

Acrescento que participei na faculdade durante mais de um ano de um grupo de estudo bíblico "ecumênico" formado por maioria de protestantes e quão agradáveis eram os debates sobre a Bíblia.

Para quem conhece pouco a doutrina católica, tem que levar em conta que o catolicismo não é a religião de um livro, mesmo que este seja sagrado. É religião de uma Pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo que, por estar vivo, é essencialmente dinâmico. A sua Palavra - Ele mesmo - nos é esclarecida em três faróis: Bíblia, Tradição e Magistério.

Cremos que a Igreja é Cristo continuado na história (At 9, 4) e que, portanto, permanece nos revelando "toda a Verdade" (Jo 16, 13), isto é, Ele mesmo. Em miúdos, Ele já nos disse tudo que precisava dizer, mas o "tudo" se esclarece à medida que o tempo passa. E a sua Palavra renova todas as coisas (Ap 21, 5) conforme a nossa capacidade de suportá-La (Jo 16, 12).

Infelizmente, não é algo tão simples de ser explicado. São Paulo resume: “Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja" (Ef 5, 32). Mas respondendo à dúvida do futuro pastor, disse que eram representações diferentes da Mãe do Senhor (Lc 1, 43). O termo técnico é: título. São títulos diferentes de Nossa Senhora em que cada título guarda uma longa história.

Por que as representações são diferentes? A resposta é arte. Cada artista representa a Mãe do Senhor com um aspecto que lhe apetece (nariz mais fino, mais redondo; mais clara, mais morena; com roupas simples ou sofisticadas etc.). Estou "simplificando" muito essa resposta. Tinha que levar em conta a descrição dos videntes em aparições etc.

Enfim, a grande evasão de católicos se dá por questões humanas (falta de acolhimento, brigas, desentendimentos com padres, lideranças, maus exemplos etc.), e não tanto por doutrinais. Mas de que adianta estar certo (ter a razão no cérebro) e não amar o irmão (ter a razão no coração)? Muito pouco.

Aos católicos que enfrentam problemas na sua paróquia, eu queria deixar um testemunho pessoal. Igreja não é lugar para se sentir bem. É claro que se você se sentir bem será um combo maravilhoso. Sigo a Igreja católica por acreditar com toda a minha alma ser a única que Jesus realmente quis e deixou. Ser, em miúdos, a verdadeira. Se eu não cresse nisso, nunca mais iria à Missa ou participaria de qualquer atividade.

Muitas vezes, eu vivi na pele o que São Paulo recomenda: "Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós" (Cl 3, 13).

Sigamos, meus irmãos, pois "quem persistir até o fim, será salvo" (Mt 24, 13).

VIVA NOSSA SENHORA APARECIDA, PADROEIRA DO BRASIL!

VIVA CRISTO REI!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Código da Vinci: nada há de novo debaixo do sol


Publicamos, sob autorização, uma excelente resenha do Pe. Juliano Ribeiro Almeida sobre o filme, também homônimo do livro, Ó Código da Vinci, escrito em 2006. O texto nos recorda o livro do Eclesiastes: nada há de novo debaixo do sol...


O FILME DO CÓDIGO
Pe. Juliano Ribeiro Almeida

Na próxima sexta-feira estréia nos cinemas de todo o Brasil o filme “O Código Da Vinci”, considerado a bilheteria mais esperada do ano e, certamente, um dos maiores sucessos cinematográficos dos últimos tempos, se seguir o estrondo de vendas que teve o livro que o inspirou.

Não há mais como desautorizar a obra; isso já foi feito e também vendeu bastante. Mas não adianta mais, pois a campanha já obteve o efeito desejado; e tudo colaborou para que a expectativa enfim vencesse o receio: até mesmo os pronunciamentos contrários ao filme por parte de algumas instâncias da Igreja Católica já cumpriram o seu papel de incentivar ainda mais a curiosidade do público. O polêmico nunca vai ser tão gostoso de se devorar quanto o proibido.

O fato é que o filme está aí e todos assistirão a ele. O público não-leitor também vai ter acesso à intrigante investigação do professor de simbologia religiosa Robert Langdon e da criptógrafa Sophie Neveu sobre um assassinato em Paris envolvendo um membro de uma antiga confraria que guarda alguns grandes pretensos segredos:

Na p. 251 do livro, faz-se um grande alarde para se dizer que Jesus foi um “homem mortal”. Grande coisa! A própria profissão de fé dos cristãos já afirma isso: “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. O cristianismo professa que Jesus morreu de verdade, pois assumiu em tudo a condição humana.

Adiante, na página 273, revela-se que Jesus é “um profeta totalmente humano”. Onde está a novidade nessa afirmação!? Os cristãos acreditam que Jesus era, sim, verdadeiramente humano, mas isso não significa negar que Ele seja divino. A doutrina cristã sempre afirmou que Cristo é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”, e não metade Deus, metade homem.

Um dos erros crassos de Dan Brown foi apresentar a interpretação que alguns evangelhos apócrifos fizeram desse “segredo” e apresentá-los como algo guardado a sete chaves pelo Vaticano, quando na verdade eles estão publicados, estudados nos seminários e facilmente localizados em sebos de toda sorte. Parece que a receita do autor é a mesma boa e velha tempestade em copo d’água; a mesma utilizada já em outros filmes, como Stigmata e O Corpo, por exemplo.

Quando se achava que a teoria do Santo Graal não alcançaria um lugar mais digno que aquele em Indiana Jones, lá vem a inusitada nova versão dos fatos: o Santo Graal não seria verdadeiramente o cálice da última ceia, mas a notícia de que o discípulo amado não era João, o evangelista, mas Maria Madalena, com quem Jesus teria se casado e estabelecido uma descendência que hoje vive na França.

No final das contas, o filme terá mais condições de atrair um incrédulo que se interesse pelo cristianismo do que abalar a fé de um cristão mediano com um mínimo de inteligência histórica. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Carta reveladora de um catequista


Recebemos a carta de um catequista e decidimos publicá-la anonimamente. 

Caro catequizando,

Escrevo para lhe dizer que sua presença faz falta.

Sua presença era muito importante durante a catequese, mas agora só existe uma cadeira vazia onde antes havia uma pessoa incrivelmente valiosa.

Sinto saudade de sua cara de dúvida quando eu fazia uma pergunta mais difícil.

Sinto saudade de ver suas sobrancelhas unidas à procura da resposta que nem sempre vinha no tempo pedido.

Sinto saudade de sua alegria espontânea que brotava de alguma situação divertida e até eu ria também, embora devesse muitas vezes segurar o riso para dar exemplo.

Sinto saudade de seu cansaço quando você contava os minutos para dar a nossa breve uma hora. Nessa parte, a culpa era toda minha e confesso a Deus minha falta.

Se eu pudesse, ficaria evangelizando por duas horas. Lembra quantas vezes eu “ameacei” estender o tempo, se não conseguisse terminar? Nunca fiz isso a sério. Era só para que todos cooperassem, “por bem ou por mal”, como se costuma dizer.

Eu tentei de todos os modos ir atrás da “ovelha perdida”.

Convidei você via redes sociais ou pessoalmente inúmeras vezes. A doença era a principal das desculpas para se safar. Tomara que sua saúde física não fique frágil por causa das mentiras...

Pedi para que seus responsáveis fossem avisados e tive a ocasião de conversar diretamente com os pais, mas não senti firmeza. Os pais em muitos casos estão mais desorientados que os filhos. Tragicamente é essa a verdade.

Mas eu quero lhe contar um segredo. Eu também parei a catequese na sua idade. Estava na Perseverança, mas não perseverei. Fui a alguns encontros e a catequista era muito enjoada.

Será que você abandonou por esse motivo? Eu já pensei nisso inúmeras vezes. No meu medidor de enjoo, eu tentava remediar com chocolates, balas e brincadeiras para pescar o peixe com isca. Não deu certo com você... infelizmente!

Eu nunca me esqueci do dia que conversei com minha mãe para me dispensar de ir à catequese. Ela não deu muita atenção e somente respondeu: se você não quiser mais, tudo bem.

Oh, como eu maldigo esse dia. Eu percebi em minha alma uma mudança. Era a tristeza. Eu fiquei triste quando tomei essa decisão. No fundo, no fundo, eu havia abandonado a Deus com plena vontade pela primeira vez.

Passaram-se cinco anos. Dos doze aos dezessete. Cinco anos longe da Igreja e longe de Deus. Que anos duros e difíceis. Cinco anos sem a Eucaristia e sem a confissão dos meus pecados. Cinco anos sem a Santa Missa. Sem ouvir a Palavra de Deus. Sem rezar direito. Sem cantar músicas de Igreja. Sem louvar a Deus. Cinco longos anos de inverno espiritual. Quantas coisas eu sofri e, ao mesmo tempo, penso de quanto mal seria poupado, se tivesse permanecido fiel, se tivesse perseverado.

“Inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti”... como Santo Agostinho entendia das coisas. Assim que eu me encontrava: inquieto. Meu coração só teve repouso quando descansou no peito de Jesus como São João o fez na Última Ceia.

O fardo do mundo é destruidor. O fardo de Cristo, pelo contrário, “é leve, é suave” como diz a Palavra. Quem dera se minha mãe tivesse sido dura comigo e me obrigado a ir. Pelo menos por um período até que, forçado, minha boa vontade surgisse de novo e eu pudesse seguir adiante, suportando ou aceitando melhor minha nova catequista.

Mas não é a minha vida que importa. É a sua vida, caro catequizando. Graças a Deus o meu tempo de afastamento foi abreviado e, com dezessete anos, tive meu encontro pessoal com Jesus vivo. Se Ele não tivesse tomado a iniciativa, que seria de mim? Não sei... trata-se de um desígnio insondável da misericórdia infinita de Deus.

Saiba que, mesmo ausente de nossos encontros, quando faço a chamada e olho para seu nome, a saudade aperta o peito. Eu me recordo da oração de Jesus: “Pai, não perdi nenhum de todos os que me deste”.

Fico pensando se não fui o culpado por você ter ido embora... é uma dor que incomoda. Fiz o que estava ao meu alcance para que ficasse?

Para terminar, quero contar outra história. Jesus, quando falou sobre a Eucaristia pela primeira vez, perdeu muitos discípulos (Jo 6, 41-71).

Após a debandada geral, Ele olha para os Doze e os questiona. “Vocês também querem ir embora?”. São Pedro, impulsivo e enérgico, quebra o silêncio e faz a profissão de fé mais bela antes da Paixão: “A quem iremos nós, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna!”.

Para onde você está indo, caro catequizando? Qual o caminho você decidiu trilhar? O que leva à porta estreita da salvação ou à porta larga da perdição? Por que você abandonou a Igreja, a Esposa tão amada de Jesus? Somente Jesus tem palavras de vida eterna. Somente Jesus pode nos dar o Céu. Somente Jesus pode nos dar a felicidade.

Você não quer uma vida plena? Em abundância? Cheia de alegria? Pois então! Siga a Jesus! Ele não promete uma caminhada fácil nesse mundo... fala de cruzes e tribulações. Mas o sofrimento faz parte de nossa condição humana.

Ninguém pode evitar totalmente a dor. Uma hora a cruz será colocada à frente da sua porta, você tem duas escolhas: carregar a cruz com Jesus que lhe dará força ou ser esmagado pelo peso da cruz.

“No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo!”.

Volta para casa do Pai. Estamos esperando por você de braços abertos.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Os morticínios liberais e a Igreja perseguida



Embora se costume reclamar (com razão) que a tendência ideológica esquerdista reinante na academia leva a certo inaceitável silêncio acerca dos genocídios cometidos pelo comunismo, a verdade é que não é tão difícil, mesmo entre meios não conservadores, que se admita, ainda que de modo tímido e dourando a pílula, que tais atrocidades ocorreram. A própria narrativa do “deturparam Marx” pressupõe que o socialismo real trouxe algo de que alguém deveria se envergonhar (e, portanto, para salvar Marx, seria preciso afastá-lo disso).

Mais raro do que encontrar informação minimamente precisa sobre os genocídios comunistas é receber notícia das atrocidades e morticínios cometidos por liberais. Com efeito, o liberalismo cresceu nutrido pelo sangue de seus adversários, principalmente, dos que professam a fé católica (representantes por excelência da mentalidade pré-moderna). Lembro aqui apenas alguns exemplos:

I) As primeiras revoluções liberais na Inglaterra. A Inglaterra é a pátria primeva do liberalismo e também o berço de um cruel projeto institucional de extermínio dos católicos. Tudo começou com a Reforma da Igreja da Inglaterra, promovida por Henrique VIII (antes de tudo, para satisfazer sua volúpia). O odioso monarca exigiu à força a submissão de todas as autoridades civis e eclesiásticas à nova ordem religiosa, em que ele próprio passava a ser o chefe da Igreja. Todos os que se recusaram a apostatar de sua fé católica e de sua lealdade ao Papa foram executados por alta traição (entre os quais o mais famoso foi São Thomas More). Henrique VIII confiscou todos os bens da Igreja e tomou para si as vastas terras dos mosteiros, destruindo-os por completo (até os engenhosos maquinários inventados pelos monges para a agricultura, cujo aproveitamento teria adiantado a Revolução Industrial em duzentos anos), em ação que deixou cerca de quinhentos monges assassinados. Entre religiosos, ministros, bispos, abades, professores universitários e cidadãos, o número de mortos se aproximou de mil.

A tentativa de Maria I de restaurar o catolicismo fracassou devido à sua morte prematura. Sua irmã Elizabeth I (hoje unanimemente alcunhada na Inglaterra de “Good Queen Bess”) se notabilizou por concluir a obra iniciada por Henrique. Já proibida a prática pública da fé católica, ela, com as chamadas leis elisabetanas, baniu o culto católico secreto e perseguiu todos os que se mantinham fiéis à religião tradicional. Por crimes como assistir à missa, esconder um padre ou se recusar a assistir aos cultos anglicanos, milhares foram executados pelos tribunais ingleses do modo mais cruel. As missões jesuítas foram perseguidas, e muitos foram exterminados. Converter alguém ao catolicismo ou ordenar um sacerdote eram crimes de alta traição. Essa bondosa rainha também consumou a conquista da católica Irlanda, com um cerco que, somado a execuções de grandes fazendeiros, causou uma terrível fome, levando mais de um milhão de irlandeses à morte, um autêntico genocídio silenciado na história. A Inglaterra jamais se desculpou ou sequer se pronunciou sobre o evento.

Jaime I foi o responsável pela elaboração sistemática de uma teologia anglicana. Em polêmica contra os grandes teólogos católicos São Roberto Belarmino e Francisco Suárez, defendeu que a submissão à autoridade do rei é primordial em relação em submissão de fé à Igreja. A obediência primeira ao Estado supera a fé religiosa, princípio básico do anglicanismo e até hoje sustentado pelos liberais ingleses (mesmo pelos mais conservadores, como Roger Scruton). Seu neto Jaime II procurou reabilitar os católicos, permitindo-lhes o exercício de cargos públicos e militares e buscando a revogação de algumas das leis que lhes denegavam direitos básicos. A Revolução Gloriosa, em 1688, celebrada como a primeira revolução liberal, não foi senão uma reação do establishment anticatólico contra a fé do rei. Eis o primeiro ato liberal da história: uma revolta contra a liberdade religiosa concedida por um monarca católico.

Assumiu o trono, alguns anos depois, a rainha Anne, filha de Jaime II, responsável pela consolidação definitiva das leis penais contra os católicos. Aos súditos da Igreja de Roma era proibido adquirir armas ou terras, exercer o comércio ou qualquer tipo de empreendimento; não poderiam herdar de um protestante, e sua herança deveria ser obrigatoriamente repartida entre um número grande de herdeiros; era vedada a existência de qualquer instituição de ensino católica, e enviar crianças ou jovens a instituições católicas no exterior era crime de altíssima gravidade; católicos tampouco podiam lecionar em instituições protestantes; era-lhes vedado suceder ao trono ou tomar parte na Família Real ou exercer qualquer cargo público. Como se vê, uma legislação que nada deixa a dever às leis do nazismo contra os judeus. Durante séculos, essa situação foi vista com normalidade e defendida pela intelectualidade liberal inglesa. Com efeito, John Locke, considerado o patriarca do liberalismo, afirmava expressamente que a tolerância era devida a todos os indivíduos, exceto aos católicos, que são “naturalmente intolerantes”.

II) A Revolução Francesa. Poucos eventos recebem aplauso tão unânime quanto a Revolução Francesa. Com seu belo lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, é aclamada como a mãe dos direitos civis e políticos, dos direitos humanos e do constitucionalismo. É o grande marco do iluminismo progressista. Enquanto os altos ideais liberais eram proclamados em voz ressonante, o dia-a-dia concreto da Revolução foi a primeira cascata de sangue moderna, a primeira ancestral das tantas que jorrariam no século XX, pelas mãos de Hitler, Stalin e Mao.

Movidos por um mortal ódio anticristão, inflamado pelos discursos violentos dos intelectuais iluministas, como Voltaire e sua trupe, os revolucionários de 1789 promoveram uma intensa descristianização à força da sociedade francesa. A Assembleia Nacional confiscou toda a propriedade da Igreja e suprimiu todos os conventos e monastérios. Quase todas as igrejas foram tomadas e saqueadas. Várias catedrais e capelas antiquíssimas, joias da arquitetura gótica, foram completamente destruídas. Imagens religiosas foram decapitadas, vandalizadas e reduzidas a pó. Em cinco anos, sobraram algumas poucas igrejas abertas em toda a França. O Culto da Razão e do Ser Supremo foi estabelecido como religião civil do Estado francês. O calendário gregoriano foi abolido, bem como o domingo como dia de descanso. Todas as localidades com nomes religiosos foram rebatizadas e todas as festas de santos foram proscritas. A Constituição Civil do Clero obrigava todos os padres a prestar juramento ao governo e não ao Papa. Todos os clérigos que se recusassem eram executados ou exilados na Guiana. Cerca de trinta mil sacerdotes foram exilados e outros milhares foram mortos. Em algumas cidades, estabeleceu-se como espetáculo público amarrar padres e freiras e afogá-los. Criou-se o crime de fanatismo, pelo qual aquele que praticasse a sério a fé católica se tornava réu de morte. Conventos inteiros de religiosas foram guilhotinados por esse crime (as mais famosas são as mártires Carmelitas de Compiègne).

Os habitantes da região da Vendeia, ao sul do Vale do Rio Loire, se insurgiram contra tais atrocidades. Um grupo exclusivamente popular, composto por camponeses, se recusou a se alistar no exército revolucionário e instaurou ali um regime de fidelidade a Deus e à monarquia. O Comitê de Salvação Pública enviou maciças tropas com a ordem de destruir a Vendeia. Toda a região foi arrasada, todas as fazendas e plantações foram dizimadas, as florestas foram incendidas, as vilas foram arruinadas e absolutamente todos os habitantes, inclusive as crianças, as mulheres, os idosos e os doentes, foram mortos. Pode-se, sem exagero, relacionar esse massacre a um expurgo stalinista. Em menos de três anos, Robespierre, o mais sanguinário dos revolucionários, matou mais gente do que a maioria dos mais trágicos eventos da história. Ainda assim, todos somos obrigados a ouvir generosos elogios à Revolução Francesa em salas de aula, num grave insulto à memória dos que a sofreram e num vilipêndio íntimo à fé dos católicos.

III) Kulturkampf. O liberalismo não encontrou terreno muito fértil na formação da Alemanha. Os povos germânicos do norte foram unificados sob a mão de ferro do ditador Otto von Bismarck, nacionalista e centralizador. Mesmo assim, houve, ao menos, uma ocasião em que os representantes do iluminismo alemão fizeram um pacto com Bismarck. Foi na concepção da Kulturkampf, uma política iniciada em 1871 com o objetivo de expurgar a influência política da Igreja Católica na Prússia. Promotores da separação Estado-Igreja e enxergando nos católicos um atraso pré-moderno, os liberais aderiram em peso ao projeto do chanceler e foram a grande base de apoio e de capital político que viabilizou a ação.

A maioria liberal nas Casas Legislativas prussianas aprovou uma série de leis anticatólicas. As ordens religiosas foram expulsas do país, e quase todos os mosteiros e conventos foram fechados; metade dos bispos prussianos foi presa ou exilada; um quarto das igrejas ficou sem sacerdote; metade dos monges e freiras deixou o país; cerca de mil e oitocentos padres foram presos ou exilados; milhares de cidadãos leigos foram presos por ajudar os clérigos; as escolas católicas foram tomadas pelo Estado, e nenhuma instituição religiosa tinha permissão para administrar uma casa de ensino; os tribunais eclesiásticos foram privados de seus poderes disciplinares sobre o clero, em favor dos tribunais civis; a formação de padres passou a ser controlada pelo Estado, que lhe definia o currículo.

A situação foi mais delicada na Polônia, alvo particular do ódio nacionalista de Bismarck, bem como do desprezo dos liberais, para quem esse povo católico era a encarnação da inimizade ao progresso. Ali, a Kulturkampf não cedeu mesmo após o seu fim oficial em todo o Estado prussiano, mantendo-se um programa institucional que previa a remoção de poloneses de todo o cargo público, o controle do clero e a germanização de todo o ensino nas escolas públicas. As autoridades prussianas prenderam cento e oitenta e cinco padres poloneses, inclusive o arcebispo primaz, e exilaram centenas de outros, e os poucos restantes tinham que exercer seu ministério na clandestinidade. A nação polonesa vivia subjugada entre essa política prussiana e, em sua porção oriental, o arrocho do czar russo, que impunha medidas semelhantes. O governo cesaropapista russo se concertava diplomaticamente com Bismarck e recebia a aprovação dos liberais. Nada como defender a liberdade enquanto aplaude uma tirania clerical sufocar a independência religiosa de uma nação inteira...

IV) A Revolução Mexicana. Outro xodó da historiografia é a Revolução Mexicana, com sua Constituição de 1917. Celebrada como a continuação da Revolução Francesa, tal Carta Magna foi a primeira no mundo a prever os direitos sociais. Assim como a tomada da Bastilha fora o marco inicial dos “direitos de primeira geração”, o México saía na vanguarda dos “direitos de segunda geração”. Em verdade, a Revolução Mexicana guarda uma continuidade com a Francesa também na sua faceta sangrenta. “Os direitos sociais” esconderam tantos litros de sangue inocente quanto os seus primos civis e políticos.

A legislação mexicana já possuía um toque anticlerical herdado da revolução liberal de 1857. A Constituição de então atacava os direitos de propriedade e as posses da Igreja. A Lei Fundamental de 1917 inaugurava um anticlericalismo radical, realmente inspirado no terror francês. Foi proibido que membros da Igreja exercessem atividades de ensino; a estrutura eclesiástica foi posta sob o controle do Estado; toda a propriedade da Igreja foi posta à disposição do Estado; as ordens religiosas foram proibidas; foi proibida a entrada de padres estrangeiros; foi dado poder a cada estado de limitar o número de sacerdotes autorizados naquela região; negou aos padres o direito de votar ou de exercer função pública; vedou-lhes oficiar cerimônia religiosa ou vestir as vestes clericais fora dos locais de culto; denegou a qualquer cidadãos o direito a julgamento por violação de qualquer dessas normas.

Em 1924, chegou ao poder o fanático ateu Plutarco Elías Calles, que acrescentou sua própria legislação anticlerical. Proibiu de sacerdotes de trabalharem sem uma licença prévia do Estado. Oficiais estaduais começaram a limitar o número de padres autorizados, de modo a deixar vastar regiões sem clérigos; todos os bens da Igreja foram expropriados; todos os bispos foram exilados ou permaneceram escondidos; centenas de sacerdotes foram mortos. Calles aplicou todas as leis anticatólicas com perfeito e doentio rigor. Os católicos se rebelaram contra o jugo do regime e deram origem à chamada Guerra dos Cristeros, contra o governo. As tropas anticlericais trataram de exterminar tão impiedosamente quanto possível os cristeros, matando até mesmo as crianças, depois de instar cada um, sob tortura, a abandonar a fé. Foi, talvez, a maior produção de mártires da história da Igreja (alguns famosos já foram elevados aos altares, com o menino José Sánchez del Río, de apenas quatorze anos, morto barbaramente pelos soldados depois de se recusar a apostatar). Cerca de trinta mil cristãos foram mortos no conflito. De quatro mil e quinhentos padres que trabalhavam no país, depois da guerra sobraram apenas trezentos e trinta e quatro, estando os demais entre foragidos, exilados e executados. A legislação de supressão da Igreja continuou a viger. Até 1940, ela não existia juridicamente; não tinha quaisquer propriedades; não tinha escolas, conventos ou mosteiros; não podia incorporar clérigos estrangeiros; não podia ser representada judicialmente; os padres não podiam trajar as vestes clericais ou votar; eram proibidas as cerimônias religiosas públicas. Por sua atitudes contra a Igreja Católica, Calles foi honrosamente condecorado pela maçonaria.

V) Guerra Civil Espanhola. O discurso oficial sobre a Guerra Civil Espanhola desenha Franco como o grande vilão da história. Franco é o caso espanhol do ditador fascista (análogo a Mussolini ou a Hitler), que lutou contra os “iluministas” “republicanos”, que buscavam “modernizar” a Espanha, tirando-a do Antigo Regime e soprando sobre ela o frescor das ideias vanguardistas. No máximo, alguém mais “isentão” reconhece que “houve erros dos dois lados”.

A história, porém, não é bem assim. A Segunda República ascendeu ao poder invocando os valores da liberdade e se inspirando nas revoluções iluministas na França e nos EUA, apoiada pelos notáveis intelectuais liberais do país na época e vista com bons olhos pelas mais finas democracias liberais do mundo, na América e na Europa, prometendo reformar a política nacional rumo à modernidade e à democracia. Como sempre, os belos jargões liberais são invocados para significar implicitamente a destruição violenta das instituições tradicionais, particularmente a Igreja Católica. A Segunda República assumiu um ódio anticlerical traduzido na edição gradativa de leis de perseguição: a ordem dos jesuítas foi dissolvida; toda a propriedade da Igreja foi nacionalizada; foi proibido o ensino religioso nas escolas.

A perseguição pela violência explícita e gratuita começou nas Astúrias em 1934, quando trinta e sete padres, religiosos e seminaristas foram sumariamente assassinados por agentes do governo. Cinquenta e oito igrejas foram destruídas naquela localidade. A partir de 1936, os assassinatos públicos, sem justificativa nem julgamento, se tornaram política oficial. Em quase toda a Espanha, a polícia caçava nas ruas membros do clero e pessoas católicas em geral e executava sumariamente. Quem fosse revistado e pego com um terço no bolso podia ser imediatamente abatido. Casas de famílias reconhecidamente praticantes eram invadidas, e as pessoas eram presas ou mortas. Os que não eram executados imediatamente eram jogados em prisões e submetidos a horrendas condições, comiam excremento, não tinham acesso a mínimas civilidades sanitárias, entocavam-se multidões em espaços diminutos, onde mal podiam se mover, e as execuções aleatórias mantinham o pavor e a tortura psicológica constantes. Isso, repita-se, era feito pela própria autoridade pública, não por grupos guerrilheiros independentes. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas nessas circunstância. A maior parte dos óbitos do período não se deu nas batalhas da guerra civil, mas nessas execuções sumárias no meio da rua. Mosteiros, conventos e igrejas foram profanados e queimados. O número total de crentes mortos varia entre cinquenta e cem mil (dos quais cerca de sete mil clérigos, incluindo alguns dos principais bispos espanhóis).

Franco era a única liderança capaz de concentrar em torno de si uma frente ampla o suficiente para combater os mafiosos republicanos. Nesse cenário, os cristãos foram obrigados a aderir a Franco na guerra. Não se tratou aqui de fazer um “cálculo pragmático” ou de escolher o “mal menor”. Era muito mais radical do que isso: Franco ou morrer. Não “Franco ou morrer porque as políticas econômicas da esquerda acabariam levando à miséria e blablablá...” mas, diretamente, “Franco ou morrer imediatamente, exterminado pela polícia, em qualquer lugar, a qualquer momento”. Nem em seus piores momentos a repressão da ditadura franquista fez coisas semelhantes às que se viram no terror republicano.

O liberalismo é o totalitarismo da tolerância.

Esse artigo foi escrito pelo Gustavo França. Ele ministrará um curso excelente sobre "O que é o Direito?", vale a pena conferir (clique aqui).

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Santo Terço diante de Deus


Evite cuidadosamente fazer o que certa piedosa, mas cabeça dura senhora de Roma fez. Ao pedir a São Domingos que lhe aconselhasse sobre sua vida espiritual ela pediu-lhe que a ouvisse em confissão. Por penitência, ele lhe mandou que rezasse um Rosário completo e aconselhou-a que o rezasse diariamente.

Ela disse que não tinha tempo para rezá-lo, desculpando-se e dizendo que tinha que fazer as Estações de Roma, todo dia, que vestia roupas de sacas, camisas de cilício, que tomava disciplina sobre si várias vezes por semana, que tinha tantas outras penitências e que jejuava bastante.

São Domingos a aconselhou novamente e várias outras vezes a seguir seu conselho e rezar o Rosário, mas ela continuava a recusar. Ela saiu do confessionário, horrorizada pela tática de seu novo diretor espiritual, que arduamente lhe persuadia a seguir a devoção que não era de seu agrado.

Mais tarde, quando ela estava orando, caiu em êxtase, e viu sua alma se apresentando diante do Trono do Julgamento de Nosso Senhor. São Miguel pôs todas as suas penitências e outras orações em dos pratos da balança e todos os seus pecados e imperfeições no outro. O prato das boas obras ficou grandemente suspenso sem conseguir equilibrar ao outro dos pecados e imperfeições.

Cheia de espanto, ela clamou por misericórdia, implorando o auxílio da Santíssima Virgem, sua graciosa advogada, que pegou o único Rosário que ela tinha rezado por aquela penitência e o pôs no prato das boas obras. Só este único Rosário era tão pesado que pesava mais que todos seus pecados e também suas boas obras.

Nossa Senhora, então, repreendeu-a por não ter seguido o conselho de seu servo Domingos e por não ter rezado o Rosário diariamente. Logo que voltou a si, correu e se pôs aos pés de São Domingos e lhe disse o que acontecera, implorou seu perdão por não ter acreditado e prometeu rezar o Rosário fielmente todos os dias. Por este meio ela se elevou à perfeição cristã e finalmente à glória da vida eterna.

Extraído do livro O segredo admirável do Santo Rosário, de São Luís Maria Grignion de Monfort.

São Domingos e os demônios


No pequeno livrinho "O segredo admirável do Santo Rosário para se converter e se salvar" (clique aqui para ler), narram-se as glórias dessa insigne devoção. Escrito por ninguém menos que São Luís Maria Grignion de Monfort. Nesse dia, dedicado a São Domingos, queremos trazer uma das histórias maravilhosas que o autor do Tratado da Verdadeira Devoção nos deixou:

Quando São Domingos estava pregando o Rosário perto de Carcassona, trouxeram à sua presença um albigense que estava possesso pelo demônio. São Domingos o exorcizou na presença de uma grande multidão de pessoas [1]; parece que mais de doze mil pessoas tinha vindo ouvi-lo pregar. Os demônios que possuía este infeliz foram obrigados a responder às perguntas de São Domingos, com muito constrangimento.

Eles disseram que:
1- Havia quinze mil deles no corpo deste pobre homem, porque ele atacou os quinze mistérios do Rosário.
2- Eles continuaram a testemunhar que, quando São Domingos pregava o Rosário ele impunha medo e horror nas profundezas do inferno e que ele era o homem que eles mais odiavam em todo o Mundo, isto por causa das almas que ele arrancou dos demônios através da devoção ao Santo Rosário.
3- Eles então revelaram várias outras coisas.

São Domingos colocou seu Rosário em volta do pescoço do albigense e pediu que os demônios lhe dissessem quem de todos os santos nos Céus, eles mais temiam, e quem deveria ser, portanto, mais amado e reverenciado pelos homens. Neste momento, eles soltaram um gemido inexprimível no qual a maioria das pessoas caiu por terra, desmaiando de medo. Então, usando de esperteza, a fim de não responder, os demônios começaram a chorar e prantear numa maneira tão deprimente que muitos da multidão começaram a chorar também, movidos por compaixão natural.

Os demônios falaram através da boca do albigense, com uma voz dolorida: “Domingos! Domingos! Tenha piedade de nós, nós prometemos que nós nunca o machucaremos. Você sempre teve compaixão pelos pecadores e aqueles que estão na miséria; tenha piedade de nós, pois estamos padecendo. Já estamos sofrendo tanto, por que você se compraz em aumentar as nossas penas? Não pode se dar por satisfeito só com o nosso sofrimento, sem ter que aumentá-lo? Tenha piedade de nós! Tenha piedade de nós!”

São Domingos não se mostrou nem um pouco movido de compaixão por estes espíritos, e lhes disse que não os deixaria a sós até que eles respondessem a pergunta. Então eles disseram que iriam sussurrar a resposta de tal forma que apenas São Domingos seria capaz de ouvi-los. Ele disse que deveriam responder claramente e em alta voz. Então os demônios se mantiveram quietos e se negaram a dizer uma só palavra, desconsiderando completamente as ordens de São Domingos que ajoelhou-se e rezou à Nossa Senhora: “Oh, toda poderosa e maravilhosa Virgem Maria, eu vos imploro pelo poder do Santíssimo Rosário, ordene a estes inimigos da raça humana que me respondam.”

Havia apenas terminado de orar, quando viu a seu lado uma chama ardente sair dos ouvidos, narinas e bocas do albigense. Todos tremeram de medo, mas o fogo não machucou ninguém. Então os demônios disseram: “Domingos, nós te imploramos, pela paixão de JESUS CRISTO e pelos méritos de Sua Santa Mãe e de todos os santos, deixe-nos sair desde corpo sem que falemos mais, pois os Anjos responderão sua pergunta a qualquer momento. E além do mais, não somos nós mentirosos? Então por que haveriam de crer em nós? Não nos torture mais; tenha piedade de nós.” “Pior para vocês, espíritos desgraçados e indignos de serem ouvidos”.

São Domingos ajoelhou-se e rezou a Nossa Senhora: “Oh, digníssima Mãe da Sabedoria, oro pelas pessoas aqui reunidas que já tinham aprendido como rezar a Saudação Angélica devotamente. Por favor, eu imploro, forçai vossos inimigos a proclamar a verdade completa e nada mais que a verdade sobre isto, aqui e agora, diante desta multidão.” São Domingos mal tinha terminado esta oração quando viu a Santíssima Virgem perto de si, rodeada por uma multidão de Anjos.

Ela bateu no homem possesso com um cajado de ouro que segurava e disse: “Responda ao meu servo Domingos imediatamente.” (Lembre-se que as pessoas nem viram ou ouviram Nossa Senhora, mas somente São Domingos.) Então os demônios começaram a gritar: “Oh, vós, que sois nossa inimiga, nossa ruína e nossa destruição, por que descestes do Céu só para nos torturar tão cruelmente? Oh, Advogada dos pecadores, vós que os tirais das presas do inferno, vós que sois o caminho certeiro para os Céus, devemos nós, para nosso próprio pesar, dizer toda a verdade e confessar diante de todos quem é que é a causa de nossa vergonha e nossa ruína?”

“Oh, pobre de nós, príncipes da escuridão: então, ouçam bem, vocês cristãos: a Mãe de JESUS CRISTO é todo-poderosa e ela pode salvar seus servos de caírem no inferno. Ela é o Sol que destrói a escuridão de nossa astúcia e sutileza. É ela que descobre nossos planos ocultos, quebra nossas armadilhas e faz com que nossas tentações fiquem inúteis e sem efeito Nós temos que dizer, porém de maneira relutante, que nem sequer uma alma que realmente perseverou no seu serviço foi condenada conosco; um simples suspiro que ela oferece à SANTÍSSIMA TRINDADE é mais precioso que todas as orações, desejos e aspirações de todo os santos”.

“Nós a tememos mais que todos os santos nos Céus juntos e não temos nenhum sucesso com seus fiéis servos. Muitos cristãos que a invocam quando estão na hora da morte e que seriam condenados, de acordo com o nossos padrões ordinários, são salvos por sua intercessão. Oh, se pelo menos essa Maria (assim era na sua fúria como eles a chamaram) não tivesse se oposto aos nossos desígnios e esforços, teríamos conquistado a Igreja e a teríamos destruído há muito tempo atrás; teríamos feito que todas as Ordens da Igreja caíssem no erro e na desordem”.

“Agora, que nós somos forçados a falar, também lhe diremos isto: ninguém que persevera ao rezar o Rosário será condenado, porque ela obtém para seus servos a graça da verdadeira contrição por seus pecados e por meio dele, eles obtêm o perdão e a misericórdia de Deus.”

Então São Domingos fez com todos rezassem o Rosário bem devagar e com grande devoção, e algo maravilhoso aconteceu: a cada Ave Maria que ele e o povo rezava, um grande grupo de demônios saia do corpo do infeliz, em forma de brasas acesas. Quando os demônios foram todos expulsos e o herege se viu inteiramente livres deles, Nossa Senhora (que ainda se mostrava invisível) deu sua benção ao povo reunido, e eles se encheram de alegria por isto. Muitos hereges se converteram por causa deste milagre e ingressaram na Confraria do Santíssimo Rosário.

[1] N.T. Este incidente é referido por S. Luís no “Tratado da Verdadeira Devoção à SSma. Virgem” quando ele explica que aqueles que amam a Nossa Senhora não se perdem. Cf. parágrafo 42.