segunda-feira, 17 de junho de 2019

Igreja Católica precisa de pastores!



O Papa Francisco disse em sua primeira missa crismal como Bispo de Roma uma frase que marcou: “sede pastores com o cheiro das ovelhas”. Queremos, como leigos, ajudar aos nossos pastores, padres e bispos, a vivenciarem bem esse pedido à luz do Bom Pastor (Jo 10, 11), que passou sua vida terrena “fazendo o bem” (At 10, 38) e, agora, sentado à direita de Deus, intercede por nós, para nos levar para a Casa do Pai (Hb 7, 25).

Acreditamos que a melhor forma de obter é mediante a oração. Portanto, reze conosco!

Dai-nos, Senhor, pastores que participem dos momentos de júbilo, como festas de casamento, de batizado, de aniversários, confraternizações no geral, assim como Vós participastes das Bodas de Caná (Jo 2, 1-11).

Dai-nos, Senhor, pastores que estejam presentes nos momentos de dor, como nos velórios, nas casas dos pacientes terminais ou acamados, nos hospitais (enfermarias, UTIs etc.), assim como Vós estivestes no velório da filha de Jairo (Mc 5, 38), no luto de Marta e Maria de Betânia (Jo 11, 21.32), no cortejo fúnebre do filho da viúva de Naim (Lc 7, 13).

Dai-nos, Senhor, pastores que se alegrem com os que estão alegres e chorem com os que choram (Rm 12, 15).

Dai-nos, Senhor, pastores que rezem sem cessar (1Ts 5, 17), considerando que as atividades mais simples devem ser realizadas em espírito de oração (1Cor 10, 31).

Dai-nos, Senhor, pastores que visitem as casas de todos, apesar do anfitrião ser desagradável (Lc 7, 39), ser mal-visto pelos outros (Lc 19, 7).

Dai-nos, Senhor, pastores que sejam pacientes com as crianças e não as afastem da Igreja junto com seus familiares por causa dos choros, pirraças, agitações etc. (Mt 19, 13-14).

Dai-nos, Senhor, pastores que estejam disponíveis para ouvir (Mc 10, 51).

Dai-nos, Senhor, pastores que amem, não “com palavras, nem com a língua, mas por atos e em verdade” (1Jo 3, 18).

Dai-nos, Senhor, pastores que conduzam as ovelhas a Vós, escondido no Santíssimo Sacramento (Jo 6, 51).

Dai-nos, Senhor, pastores que queiram dar de graça o que de graça receberam de Vós (Mt 10, 8).

Dai-nos, Senhor, pastores que ensinem a doutrina dos vossos apóstolos (At 2, 42), tal qual receberam e está contida no Catecismo da Igreja Católica (Magistério, Tradição e Escritura).

Dai-nos, Senhor, pastores que lembrem ao povo a moral dos Dez Mandamentos, tal qual os aperfeiçoamentos feitos por Vós, sobretudo em matéria de trato mútuo (Mt 5, 22) e de pureza (Mt 5, 28).

Dai-nos, Senhor, pastores que queiram agradar a Vós e não aos homens (Gl 1, 10; Ef 6, 6).

Dai-nos, Senhor, pastores que celebrem a Santa Missa (1Cor 11, 23), tal qual receberam de Vós e da vossa Igreja, sem modismos, sem firulas, sem “criatividade selvagem”.

Dai-nos, Senhor, pastores que não cometam o terrível crime do sacrilégio contra o vosso Corpo e o vosso Sangue, atraindo maldições a si e a paróquia, ao comungar em pecado grave sem ter sido confessado (1Cor 11, 27-30).

Dai-nos, Senhor, pastores que gastem tempo ministrando a Confissão (Jo 20, 23), sobretudo para os fiéis da zona rural não contemplados nos horários fixos da zona urbana, assim todos, da roça e da cidade, poderão “louvar a Deus por ter dado tal poder aos homens” (Mt 9, 8).

Dai-nos, Senhor, pastores que sejam misericordiosos e acolham os pecadores de modo que abandonem seus pecados graves, ainda mais quando escandalosos, e fazem outros caírem (Jo 8, 1-11).

Dai-nos, Senhor, pastores que deem a unção aos doentes (Tg 5, 14-15; Mc 6, 13), principalmente quando não têm condições de ir à secretaria paroquial.

Dai-nos, Senhor, pastores que se alegrem mais em dar do que receber (At 20, 35).

Dai-nos, Senhor, pastores que preparem de verdade os jovens para o matrimônio e para a árdua missão de serem família, Igreja doméstica (Ef 5, 25-30).

Dai-nos, Senhor, pastores que rezem por mais pastores (Lc 10, 2) e eduquem novos pastores (Fl 4, 9; 2Tm 2, 1-3).

Dai-nos, Senhor, pastores que joguem fora as “panelinhas”, que dividem vossa Igreja ainda mais por dentro (1Cor 3, 4).

Dai-nos, Senhor, pastores que saibam valorizar os que estão a serviço, mas que vão ao encontro dos que se perderam e lhes restituam a dignidade de filhos de Deus (Lc 15, 31-32).

Dai-nos, Senhor, pastores que se preocupem mais com o templo vivo do Espírito Santo do que com paredes de tijolo, cimento, argamassa, pintura, textura (1Cor 6, 19-20).

Dai-nos, Senhor, pastores que suportem as pequenas faltas das ovelhas, sem se esquecer da correção fraterna quando necessária (Cl 3, 13-16; Mt 18, 15-17).

Dai-nos, Senhor, pastores cheios do Espírito Santo (Ef 5, 18) e que prossigam no caminho decididamente (Fl 3, 16).

Dai-nos, Senhor, pastores que sejam “pescadores de homens” (Lc 5, 10) e não de dinheiro (Mt 6, 24).

Dai-nos, Senhor, pastores que queiram “ser tudo para todos” (1Cor 9, 22).

Dai-nos, Senhor, pastores sem vida própria (Mt 16, 24), então vazios de si (Fl 3, 8), poderão oferecer a presença de Outro (Gl 2, 20; At 19, 11).

Dai-nos, Senhor, pastores que calculem o sobredito sem esquecer de somar com Mateus 25, 31-46.

Dai-nos, Senhor, pastores que apascentem as ovelhas, livrando-as dos lobos (Jo 10, 12) e as conduzam às pastagens verdejantes do Reino dos Céus (Fl 3, 20).

Afinal, Senhor, de que adianta os pastores ganharem o mundo inteiro se vierem a perder as suas almas? (Mc 8, 36). Bendito sejais porque já nos ouvistes. Amém. 

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Irmãos, a verdade é: essa lista de preces poderia ser muito maior e cada vez mais detalhada em pormenores. Aos homens de carne e osso, é impossível cumpri-la, ainda que seja no primeiro item. Somente com o Bom Pastor é possível realizá-la por meio da graça que supõe e aperfeiçoa a natureza (Jo 15, 5; 2Cor 12, 9). Apenas em estado de graça haverá um rio de água viva (Jo 7, 38) no coração do padre/do bispo. Caso contrário, ele será tudo, menos o pastor conforme o coração de Deus (Jr 3, 15). Com Nosso Senhor, o fardo e o jugo serão leves (Mt 11, 28-30) e receberão, já agora, cem vezes mais do que renunciaram, com perseguições, e depois a recompensa eterna no Céu (Mc 10, 30).

PS. Não podemos nos esquecer que o Papa Francisco também insiste muito na questão do bem possível, isto é, Deus não nos exige coisas impossíveis. Tudo que podemos dar é o que devemos dar. Se só cobramos os nossos pastores e não colaboramos na missão, imitamos a “justiça” dos fariseus: atam fardos pesados sobre os ombros dos outros e eles mesmos não os moviam sequer com o dedo (Mt 23, 4). Nosso Senhor mal tinha tempo para se alimentar e, quando tentou fazer um retiro com os discípulos esgotados, não conseguiu, pois “viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não tem pastor” (Mc 6, 34). Como ovelhas do aprisco do Bom Pastor, ajudemos os nossos pastores a fazerem o possível com o nosso possível!

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Francisco: Quem ostenta pecados públicos não pode dar catequese ou pregar!


“Se for rejeitar os pecadores como catequistas, não vai sobrar ninguém!” – ouvi isso de alguém que defendia a aceitação de pessoas que vivem em situação objetiva de pecado mortal como catequistas.
É uma boa frase de impacto, que pode convencer os menos advertidos. Mas é totalmente superficial e enganosa.
Uma coisa é um pecador que, a cada queda, rejeita o pecado e retoma o caminho de santidade, fortalecendo-se nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Outra coisa bem diferente é estar em constante situação de pecado mortal e público, sem se desvencilhar dessa situação – o que lhe impede até mesmo de receber a Sagrada Comunhão.
O que é viver em pecado mortal e público? É a pessoa que, mesmo sabendo que a doutrina da Igreja condena a moralidade de seu modo de vida, decide (por motivos que só Deus pode julgar) seguir vivendo nesse mesmo estado. Soma-se a isso o fato de que se trata de um modo de vida assumido publicamente.
Para falar dos casos mais comuns de pecados graves e públicos, podemos citar:
  • os casais em segunda união (pessoas que, sendo casadas na Igreja, se divorciaram e se uniram a outra pessoa);
  • pessoas solteiras que vivem amasiadas;
  • homossexuais que não vivem a castidade e se relacionam com pessoas do mesmo sexo.
As portas e o coração da Igreja e de todos os cristãos devem estar escancaradas para essas pessoas, que são bem-vindas nas mais diversas atividades das paróquias: reuniões de oração, estudos bíblicos, palestras de formação espiritual, ações de caridade, direção espiritual com o padre ou diácono e no serviço às mais diversas pastorais.
Parece-me muito razoável que as pessoas em situação matrimonial irregular atuem (até mesmo em funções de liderança) nas pastorais carcerária, do dízimo, do teatro, da saúde, da criança, da música etc.
Porém, é problemático que assumam funções de catequese e pregação. Seria como passar a seguinte mensagem aos catecúmenos: “A Igreja prega isso e isso sobre moral sexual. Mas não é tão sério assim, porque, vejam, seu catequista vive o contrário disso e está aí, pregando para você. E está tudo bem!”.
Ou alguém aí acha que seria uma boa ideia ter uma casal em situação matrimonial irregular na coordenação do ECC - Encontro de Casais com Cristo? E que tal seria um homem em segunda união ser ordenado diácono?
Um catequista que vive em situação matrimonial irregular é como um personal trainer magricelo e flácido. Ele tem a missão de te motivar a pegar pesado nos exercícios e a ter disciplina com a alimentação. Ele até faz isso... Mas só com palavras! Pois, quando você olha para o seu estilo de vida e imagem, vê imediatamente o abismo entre o que ele prega e o que ele pratica.
A regra é simples: os que vivem em situação objetiva de pecado mortal “devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo” (Amoris Laetitia, 299). Ou seja, integração SIM, desde que o serviço eclesial assumido não seja motivo de escândalo
Acho que a lógica deveria bastar e sobrar para provar o que estamos dizendo. Mas, para quem é viciado em pedir documentos, vamos lá...
Catecismo aborda a questão de forma bem genérica, mas já delineia a existência de uma limitação sobre as funções que pessoas em segunda união podem assumir na Igreja:
Por isso, não podem aproximar-se da comunhão eucarística, enquanto persistir tal situação. Pelo mesmo motivo, ficam impedidos de exercer certas responsabilidades eclesiais. (CIC, 1650)
Já sabemos que não podem “exercer certas responsabilidades eclesiais”. Mas quais seriam essas responsabilidades? O Papa Francisco dá nome aos bois:
Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objecto duma misericórdia «imerecida, incondicional e gratuita». Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Não me refiro só aos divorciados que vivem numa nova união, mas a todos seja qual for a situação em que se encontrem. Obviamente, se alguém ostenta um pecado objectivo como se fizesse parte do ideal cristão ou quer impor algo diferente do que a Igreja ensina, não pode pretender dar catequese ou pregar e, neste sentido, há algo que o separa da comunidade (cf. Mt 18, 17). Precisa de voltar a ouvir o anúncio do Evangelho e o convite à conversão. Mas, mesmo para esta pessoa, pode haver alguma maneira de participar na vida da comunidade, quer em tarefas sociais, quer em reuniões de oração, quer na forma que lhe possa sugerir a sua própria iniciativa discernida juntamente com o pastor.
- Amoris Laetitia, 297
É fundamental esclarecer que o católico divorciado que vive castamente pode ser catequista, sem problemas. Especialmente quando não foi o causador do divórcio, e fez de tudo para manter o casamento.
A ação pastoral justa e misericordiosa se alcança por meio de um equilíbrio que só a graça do Espírito Santo pode nos dar. Ao rejeitar o farisaísmo, não podemos cair no erro oposto: o jujubismo.
Extraído d'O Catequista

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Cardeal Müller recorda a fé


 
Declaração de Fé
“Não se perturbe o vosso coração!” (Jo 14, 1)

Diante de uma confusão cada vez mais generalizada no ensino da fé, muitos bispos, sacerdotes, religiosos e leigos da Igreja Católica pediram-me para dar testemunho público da verdade da Revelação. A tarefa dos pastores é guiar os homens que lhes são confiados pelo caminho da salvação, e isso só pode acontecer se tal caminho for conhecido e se eles forem os primeiros a percorrê-lo. A esse respeito, o Apóstolo advertiu: “Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi” (1Cor 15, 3). Hoje, muitos cristãos nem sequer conhecem os fundamentos da fé, com um crescente perigo de não encontrarem o caminho que leva à vida eterna. No entanto, a tarefa própria da Igreja continua a ser levar as pessoas a Jesus Cristo, a luz dos gentios (cf. LG 1). Nesta situação, alguém se pergunta como encontrar a orientação correta. Segundo João Paulo II, o Catecismo da Igreja Católica representa uma “norma segura para o ensino da fé” (Fidei Depositum IV). Foi escrito para fortalecer os irmãos e irmãs na fé, uma fé posta à prova pela “ditadura do relativismo”[1].

1. Deus uno e trino, revelado em Jesus Cristo
O epítome da fé de todos os cristãos reside na confissão da Santíssima Trindade. Nós tornamo-nos discípulos de Jesus, filhos e amigos de Deus, através do Batismo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A diferença das três pessoas na unidade divina (254) marca uma diferença fundamental na fé em Deus e na imagem do homem em relação às outras religiões. Reconhecido Jesus Cristo, os fantasmas desaparecem. Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, encarnado no ventre da Virgem Maria pela obra do Espírito Santo. O Verbo feito carne, o Filho de Deus é o único Salvador do mundo (679) e o único mediador entre Deus e os homens (846). Por esta razão, a primeira carta de João refere-se àquele que nega a sua divindade como o anticristo (1Jo 2, 22), visto que Jesus Cristo, Filho de Deus, desde a eternidade é um único ser com Deus, seu Pai (663). É com clara determinação que é necessário enfrentar o reaparecimento de antigas heresias que em Jesus Cristo viam apenas uma boa pessoa, um irmão e um amigo, um profeta e um exemplo de vida moral. Ele é, antes de tudo, a Palavra que estava com Deus e é Deus, o Filho do Pai, que tomou a nossa natureza humana para nos redimir e que virá para julgar os vivos e os mortos. Só a Ele adoramos em união com o Pai e o Espírito Santo como o único e verdadeiro Deus (691).

2. A Igreja
Jesus Cristo fundou a Igreja como sinal visível e instrumento de salvação, que subsiste na Igreja Católica (816). Ele deu à sua Igreja, que “nasceu do coração trespassado de Cristo morto na cruz” (766), uma estrutura sacramental que permanecerá até ao pleno cumprimento do Reino (765). Cristo, cabeça, e os crentes como membros do corpo são uma pessoa mística (795), por essa razão a Igreja é santa, visto que Cristo, o único mediador, a estabeleceu na terra como um organismo visível e continuamente a apoia (771). Por meio dela, a obra redentora de Cristo torna-se presente no tempo e no espaço com a celebração dos Santos Sacramentos, especialmente no Sacrifício Eucarístico, a Santa Missa (1330). Com a autoridade de Cristo, a Igreja transmite a revelação divina, “que se estende a todos os elementos da doutrina, incluindo a moral, sem a qual as verdades salvíficas da fé não podem ser guardadas, expostas ou observadas” (2035).

3. A Ordem sacramental
A Igreja é em Jesus Cristo o sacramento universal da salvação (776). Ela não se reflete a si mesma, mas a luz de Cristo, que resplandece no rosto, e isso só acontece quando o ponto de referência não é a opinião da maioria, nem o espírito dos tempos, mas a verdade revelada em Jesus Cristo, que confiou à Igreja Católica a plenitude da graça e da verdade (819): Ele mesmo está presente nos Sacramentos da Igreja.
A Igreja não é uma associação criada pelo homem, cuja estrutura pode ser modificada pelos seus membros à vontade: é de origem divina. “O próprio Cristo é a origem do ministério na Igreja. Ele instituiu-a, deu-lhe autoridade e missão, orientação e fim” (874). A admoestação do Apóstolo ainda é válida hoje, segundo a qual é amaldiçoado alguém que proclama outro Evangelho, “nós mesmos, ou um anjo do céu” (Gl 1, 8). A mediação da fé está intrinsecamente ligada à credibilidade humana dos seus pregadores: em alguns casos, abandonaram aqueles que lhes haviam sido confiados, perturbando-os e prejudicando seriamente a sua fé. Para eles cumpre-se a palavra da Escritura: “virão tempos em que o ensinamento salutar não será aceite, mas as pessoas acumularão mestres que lhes encham os ouvidos, de acordo com os próprios desejos” (2 Tm 4,3-4).
A tarefa do Magistério da Igreja para com o povo de Deus é “protegê-lo de desvios e falhas” para que possa “professar sem erro a fé autêntica” (890). Isto é especialmente verdadeiro em relação aos sete sacramentos. A Sagrada Eucaristia é “a fonte e o cume de toda a vida cristã” (1324). O Sacrifício Eucarístico, em que Cristo nos envolve no sacrifício da cruz, visa a união mais íntima com Ele (1382). Por isso, a Sagrada Escritura alerta para as condições para receber a Sagrada Comunhão: “Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11, 27) e, em seguida, “Quem está ciente de que cometeu um pecado grave, deve receber o sacramento da Reconciliação antes de receber a Comunhão” (1385). Da lógica subjacente ao sacramento percebe-se que os divorciados e recasados ​​civilmente, cujo casamento sacramental diante de Deus ainda é válido, bem como todos aqueles cristãos que não estão em plena comunhão com a fé católica e também todos aqueles que não estão devidamente preparados, não recebem a Sagrada Eucaristia frutiferamente (1457), porque deste modo não os leva à salvação. Realçá-lo, corresponde a uma obra de misericórdia espiritual.
O reconhecimento dos pecados na Santa Confissão, pelo menos uma vez por ano, é um dos preceitos da Igreja (2042). Quando os crentes já não confessam os seus pecados recebendo a absolvição, a salvação trazida por Cristo torna-se vã, pois Ele fez-se homem para nos redimir dos nossos pecados. O poder do perdão, que o Ressuscitado conferiu aos Apóstolos e aos seus sucessores no Episcopado e no Sacerdócio, restaura os pecados graves e veniais cometidos depois do Batismo. A prática atual da confissão mostra que a consciência dos crentes não está suficientemente formada. A misericórdia de Deus é-nos dada para que possamos cumprir os seus Mandamentos para nos conformarmos à sua santa vontade e não para evitar o chamamento à conversão (1458).
“É o sacerdote que continua a obra da redenção na terra” (1589). A ordenação, que confere ao sacerdote “um poder sagrado” (1592), é insubstituível porque, através dele, Jesus torna-se sacramentalmente presente na sua ação salvadora. Os sacerdotes escolhem voluntariamente o celibato como “um sinal dessa nova vida” (1579). Trata-se da entrega de si para o serviço de Cristo e do Seu Reino vindouro. A fim de conferir a ordenação validamente nos três graus do Sacramento, a Igreja reconhece-se como limite para a escolha feita pelo próprio Senhor, “por esta razão a ordenação de mulheres não é possível” (1577). A este respeito, falar de discriminação contra as mulheres demonstra claramente uma incompreensão deste Sacramento, que não diz respeito a um poder terrestre, mas à representação de Cristo, o Esposo da Igreja.

4. A lei moral
Fé e vida são inseparáveis, porque a fé sem as obras feitas no Senhor é morta (1815). A lei moral é o trabalho da sabedoria divina e leva o homem à beatitude prometida (1950). Consequentemente, a “lei divina e natural mostra ao homem o caminho a seguir para fazer o bem e alcançar o seu objetivo” (1955). A sua observância é necessária para que todas as pessoas de boa vontade alcancem a salvação eterna. De fato, aquele que morre em pecado mortal sem arrependimento permanecerá para sempre separado de Deus (1033). Isto implica consequências práticas na vida dos cristãos, entre as quais é oportuno recordar aquelas que hoje são mais frequentemente negligenciadas (cf. 2270-2283; 2350-2381). A lei moral não é um fardo, mas faz parte dessa verdade libertadora (cf. Jo 8, 32), através da qual o cristão caminha no caminho da salvação e não deve ser relativizada.

5. Vida Eterna
Muitos hoje perguntam porquê a Igreja ainda existe se os próprios bispos preferem agir como políticos, em vez de mestres da fé e proclamar o Evangelho. O olho não se deve deter em questões secundárias, mas é mais necessário do que nunca para a Igreja assumir a sua própria tarefa. Todo o ser humano tem uma alma imortal, que na sua morte é separada do corpo, mas com a esperança da ressurreição dos mortos (366). A morte toma a decisão do homem a favor ou contra Deus. Todos terão que enfrentar o juízo pessoal imediatamente após a morte (1021): ou será necessária uma purificação ou o homem irá diretamente para a felicidade celestial e será permitido contemplar Deus face-a-face. Mas há também a terrível possibilidade de que uma pessoa, até ao fim, permaneça em contradição com Deus: rejeitando definitivamente o seu amor, “chorará imediatamente para sempre” (1022). “Deus, que nos criou sem nós, não nos quis salvar sem nós” (1847). A eternidade da punição do Inferno é uma realidade terrível, que, de acordo com o testemunho das Sagradas Escrituras, diz respeito a todos aqueles que “morrem em estado de pecado mortal” (1035). O cristão atravessa a porta estreita, “porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele” (Mt 7, 13). Manter em silêncio estas e outras verdades da fé ou ensinar o oposto é o pior engano contra o qual o Catecismo adverte vigorosamente. Esta representa a última prova da Igreja, ou “uma impostura religiosa que oferece aos homens uma solução aparente para os seus problemas, ao preço da apostasia da verdade” (675). É o engano do Anticristo, que vem “com todo o tipo de seduções de injustiça para os que se perdem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (2Ts 2, 10).

Apelo
Como trabalhadores na vinha do Senhor, todos nós temos a responsabilidade de recordar estas verdades básicas que se agarram ao que nós mesmos recebemos. Queremos dar coragem para percorrer o caminho de Jesus Cristo com determinação, a fim de obter a vida eterna seguindo os Seus mandamentos (2075).
Pedimos ao Senhor que nos deixe saber quão grande é o dom da fé católica, através do qual a porta para a vida eterna é aberta. “Pois quem se envergonhar de mim e das minhas palavras entre esta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos” (Mc 8, 38). Portanto, estamos comprometidos em fortalecer a fé confessando a verdade que é o próprio Jesus Cristo.
O aviso que Paulo, o apóstolo de Jesus Cristo, dá ao seu colaborador e sucessor Timóteo é dirigido particularmente a nós, bispos e padres. Ele escreveu: “Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, peço-te encarecidamente, pela sua vinda e pelo seu Reino: proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência. Virão tempos em que o ensinamento salutar não será aceite, mas as pessoas acumularão mestres que lhes encham os ouvidos, de acordo com os próprios desejos. Desviarão os ouvidos da verdade e divagarão ao sabor de fábulas. Tu, porém, controla-te em tudo, suporta as adversidades, dedica-te ao trabalho do Evangelho e desempenha com esmero o teu ministério” (2Tm 4, 1-5).

Que Maria, Mãe de Deus, implore a graça de nos apegarmos à confissão da verdade de Jesus Cristo sem vacilar.
Unidos na fé e na oração,

Gerhard Cardeal Müller
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé entre 2012 e 2017

[1] Os números que aparecem no texto correspondem ao Catecismo da Igreja Católica.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Top 10 da espiritualidade católica



A nossa equipe preparou uma lista contendo os dez livros de espiritualidade indispensáveis para os católicos começarem muito bem o ano de 2019. Sabemos que a “repugnância” em ler é um problema cultural do Brasil, tanto que há menos de cinco anos 70% da população não abriu um livro sequer. Esse é um sinal evidente da degradação educacional que nos assola. Mas acreditamos em dias melhores e, levando em conta esse quadro social, elaboramos a lista, pensando em obras com linguagem simples, clara e, ao mesmo tempo, profunda, pois toca os corações mais endurecidos. Para isso é preciso dar o primeiro passo.

A Bíblia não entrará na contagem, pois de fato é “o Livro dos livros”. Como diz São Jerônimo, o primeiro tradutor bíblico para o latim, quem ignora a Sagrada Escritura, ignora o Cristo. Pe. Paulo Ricardo numa aula ao vivo explica a relação entre a Bíblia e a Igreja Católica após uma polêmica envolvendo Dom Henrique Soares e Silas Malafaia (clique aqui). Para conferir o nosso roteiro ou método de leitura com as sugestões de por onde começar, acesse-o clicando aqui. Quem quiser conhecer o “salário-mínimo” da fé católica, não pode deixar de ler esse artigo do nosso apostolado (clique aqui).



Feitas essas considerações, podemos passar à lista dos "top 10", cujo objetivo é cultivar a espiritualidade católica. Em matéria de doutrina, demos nossa contribuição ao escrever o "Tirando o ano do laicato do papel" (clique aqui). E, tendo em vista as dificuldades linguísticas que as pessoas encontram na leitura dos documentos oficiais da Igreja, mesmo os mais fáceis, concluímos o "Breve curso de catequese" que pode ser acessado, clicando aqui.

1º - A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja.

2º - A misericórdia divina em minha alma (diário) - Santa Faustina Kowalska, vidente de Jesus Misericordioso.

3º - O Segredo do Rosário - São Luís Maria Grignion de Montfort. 

4º - O Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Maria - São Luís Maria Grignion de Montfort.

5º - Memórias - Irª. Lúcia, vidente de Fátima.

6º - Imitação de Maria - Autor desconhecido, monge.

7º - Preparação para a morte - Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja.

8º - 25 Minutos - Franz Coriasco, biógrafo da beata Chiara Luce Badano.

9º - Imitação de Cristo - Tomás de Kempis, monge.

10º - Filoteia - São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja.

Nós recomendamos esses livros necessariamente nessa ordem. A maioria deles pode ser baixada na Internet. Lembrando que foram escritos para serem meditados, isto é, degustados a conta-gotas. Não se deve lê-los num fôlego só. Eles pedem uma leitura pausada... no máximo, três páginas por dia.

Após o "top 10", poderíamos fazer outra lista... não deixe faltar em sua estante: Um olhar que cura - Pe. Paulo Ricardo (expõe as doenças espirituais e como tratá-las... é um manual popular de ascese cristã) e O banquete do Cordeiro - Scott Hahn (evidencia como a Santa Missa é o cumprimento do Apocalipse). A dica infalível é ler todo livro assinado por um santo reconhecido pela Igreja... e dedicar também um tempo a conhecer as biografias dos santos (os filmes podem facilitar o percurso). Agora é por sua conta! Tolle et lege!