sexta-feira, 16 de março de 2018

Tirando o Ano do Laicato do papel



Há alguns anos eu venho meditando sobre qual é o mínimo sobre a fé católica que todo batizado deveria saber, independentemente das suas condições específicas, isto é, seja rico ou pobre, culto ou meramente alfabetizado, atuante ou membro cativo da pastoral do banco. O primeiro passo é, sem dúvida, conhecer. E depois com a ajuda da graça passar a viver. Uns voam como águias, outros como pássaros miúdos e um grupo ainda está no ninho. O que importa nesse processo é estar em movimento. Nas palavras de São Paulo, “prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo” (Fl 3, 13-14).

Antes de explicar como fazer isso, gostaria de deixar uma contribuição prática a todos, sem exceção, que lerem esse pequeno artigo. Embora o catolicismo não seja a religião do livro, vamos à Bíblia. São João, que foi um dos Apóstolos que mais escreveram no Novo Testamento, disse ao final do seu belíssimo Evangelho: "Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21, 25). O discípulo amado trazia a preocupação ecológica antes mesmo de se debater esse assunto. Brincadeiras à parte.

O Documento n. 105 da CNBB traz reflexões importantes e necessárias ao povo brasileiro. Se fosse resumi-lo em uma frase, diria que: os bispos do Brasil desejam que os leigos e leigas testemunhem Cristo com suas vidas no mundo. É aquele versículo extraordinário que traduz o pedido, quase a súplica paternal, de um bispo já citado: “Meus filhinhos, não amemos com palavras nem a com a língua, mas por atos e em verdade” (1Jo 3, 18).

Afinal de contas, como fazer isso em larga escala? O objetivo principal do Documento n. 105 é esse, mas fracassa. Por quê? Por uma razão muito simples, ele aborda tanto as complexidades do mundo moderno que o efeito é justamente o contrário: paralisa as pessoas. No lugar de mobilizar, estagna. Os leigos, no geral, não procuram se aprofundar nas nuances das “bases fundamentais do mundo globalizado” (5.1). Esse é um interesse muito reduzido de pessoas com propensão à vida intelectual. O erro do Documento n. 105 é acreditar que, num passe de mágica (ou “conscientização”, sinônimos hoje em dia), haverá um engajamento e protagonismo maravilhosos da Igreja no Brasil e que mudará a realidade para melhor.

Eu sei que os bispos não são ingênuos de pensarem que da noite para o dia essa transformação acontecerá. Mas esse conteúdo altamente sofisticado está ali porque se espera que uma hora esse “despertar” religioso, cultural, político, econômico, jurídico e, por fim, social sucedam. É como água mole em pedra dura. Mas sinto ser um portador de más notícias: não acredito nessa solução, levando em conta o alcance almejado e o público-alvo. Vou ser mais direto.

O Magistério da Igreja é uma árvore frondosa. Repleto de frutos com sabores diferentes. Só para fazermos uma listinha:


- Catecismo da Igreja Católica: 940 páginas.
- Compêndio do Catecismo da Igreja Católica: 192 páginas.
- “Denzinger” (Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral): 1.468 páginas.
- Compêndio do Vaticano II: 796 páginas.
- Documentos de Paulo VI: 480 páginas.
- Documentos de João Paulo I e outras encíclicas de João Paulo II: 272 páginas.
- Documentos de João Paulo II: 1.144 páginas.
- Teologia do Corpo (série de catequeses entre 1979 a 1984): 604 páginas.
- Código de Direito Canônico: 896 páginas.
- Homiliário do Papa Bento XVI: 2.676 páginas.
- Textos do Papa Francisco: Laudato si’ (184), Evangelii Gaudium (163), Amoris Laetitia (208) etc.
- Youcat: 304 páginas.
- Docat: 320 páginas.
- Compêndio da Doutrina Social da Igreja: 527 páginas.

  Obs. O último documento da CNBB foi de nº 107. Embora, como regra, os documentos da Conferência não integrem o Magistério naquilo que não lhes foi delegado pela Santa Sé, se colocarmos uma média baixa de 100 páginas, serão mais de 10.000 páginas para a Igreja no Brasil. O Documento nº 105, por exemplo, tem 183.

  Obs2. Se formos incluir a Bíblia da Ave-Maria, são mais 1.696 páginas. Sem contar a liturgia diária que soma, em média, 100 páginas por mês. 1.200 páginas.

  Obs3. Não contabilizei: as instruções e notas dos dicastérios papais como a Congregação para a Doutrina da Fé; a liturgia das horas por ser obrigatória somente para os ministros ordenados e religiosos (4 volumes de 600 páginas); as obras de espiritualidade dos santos (a título ilustrativo, a de Santa Teresinha é uma Bíblia de 1400 páginas); os livros religiosos comumente vendidos (devocionários, oracionais, comentários bíblicos e teológicos etc.); Coleção da Patrística: 17.993 páginas (entraria mais como Tradição); Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino: 3.396 páginas etc.

Agora, é possível entender melhor o discípulo amado para além da sua preocupação ecológica: "Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever” (Jo 21, 25).

Sabe qual é o paradoxo nessa situação? Não chega 1% desse material às mãos da maioria esmagadora dos católicos. E qual é o resultado? Nosso Senhor continua a falar pela pena do profeta Oséias: “meu povo se perde por falta de conhecimento” (Os 4, 6).

É como disse no início o Documento n. 105 serve a uma “elite” de católicos, a um grupo extremamente reduzido de fiéis com meios de interpretá-lo com acerto. No mais, a ignorância nas questões mais básicas é reinante. A catequese, como um todo, geração após geração tem falhado no Brasil.



O quê fazer diante desse cenário tão triste? Como mudar com os pés no chão?

A primeira etapa é colocar os fiéis em contato com a sã doutrina da salvação. Dentre todos os documentos citados acima, o que melhor cumpre essa função é o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. São apenas 70 páginas (formatadas no Word) que podem mudar sua compreensão sobre a fé católica. Mudar para ampliar ou mudar para acertar.

Nesse pequeno e, ao mesmo tempo, grande tesouro a Igreja, nossa boa Mãe, ensina a nós os seguintes pontos:

i) como ler a Bíblia de forma correta;
ii) explica o Credo rezado em toda Santa Missa;
iii) dá uma aula sobre os sete sacramentos;
iv) fala sobre as vocações;
v) trata dos Dez Mandamentos, um por um, e quais as consequências;
vi) E ensina sobre o Pai Nosso.

Tudo isso em 70 pagininhas? Sim. Inacreditável. E mais: com o selo do Magistério infalível. É água pura.

Linguagem difícil? Não. Muito simples.

Qual é a dinâmica? Perguntas e respostas curtas.

Como consigo ler?
Parte 1 (clique aqui) e 
Parte 2 (clique aqui).


Quem quiser pelo celular:
Existe um aplicativo chamado Catecismo da Igreja Católica e lá tem uma opção "Compêndio".

Uma nota é importante: quem se preocupa com o "cristianismo na prática" (obras de misericórdia corporais), saiba que o DOCAT e a Doutrina Social da Igreja ensinam que é da vida interior (vivência da fé) que brota a força para as boas obras exteriores. Então, uma coisa não exclui outra. Os testemunhos dos grandes santos atestam essa verdade.


Podemos prosseguir para os 5 passos simples de como viver a fé católica. A simplicidade se deve à nossa professora que é ninguém menos que a Virgem Maria. Em suas aparições recentes no mundo, ela instruiu como destruir o diabo com 5 pedrinhas como o rei Davi um dia fizera com o gigante Golias (1Sm 17).

Antes de tudo, convém fazer uma pequena catequese: Maria é a Mulher profetizada no Gênesis, em que Deus mesmo estabeleceu o ódio entre ela e a serpente infernal (Gn 3, 15). Tanto Maria é a Mulher que Nosso Senhor em seu primeiro milagre ocorrido graças à sua intercessão (Jo 2, 1-9), chamou-a expressamente de "Mulher". E, enquanto pendia do madeiro da cruz, recordou-a de sua missão (Jo 19, 26-27). Por fim, a Mulher, na luta contra a serpente, sai vitoriosa e coroada por Deus (Ap 12, 1ss).

1ª Pedrinha – ORAÇÃO – Você reza todos os dias?

Sugestão: a recitação do Santo Terço diariamente é a arma mais eficaz. Foi o que Mãe do Senhor (Lc 1, 43) pediu em todas as suas aparições, sobretudo em Fátima em que comemoramos 100 anos em 2017.

2ª Pedrinha – CONFISSÃO – Há quanto tempo você não se confessa? Faz muito tempo? Anos? Décadas talvez?

Obs. Toda vez que se cometer um pecado grave é necessário se confessar (§1863, Catecismo da Igreja Católica). Sugestão: 1 vez por mês. Para acessar o melhor exame de consciência que conheço (clique aqui). A confissão é, em regra, individual ao sacerdote (Cân. 960 c/c Jo 20, 23), salvo em risco de morte ou necessidade grave que se aceita a confissão coletiva como último recurso (Cân. 961).

3ª Pedrinha - EUCARISTIA – Comunga com frequência?

Obs. Não se pode receber a Hóstia tendo pecado grave que não foi confessado (§1415, Catecismo da Igreja Católica). O sacrilégio é uma ofensa terrível e quem o pratica, torna-se réu do Corpo do Senhor (1Cor 11,29). A comunhão para os recasados/2ª união nunca foi liberada pela Igreja (§270, Youcat). Papa Francisco recorda essa verdade básica ensinada desde São Paulo (clique aqui) e o Arcebispo Ladaria, atual Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé indicado pelo Papa, apenas a aplica aos recasados (clique aqui).


4ª Pedrinha – BÍBLIA – Você lê a Palavra de Deus todos os dias?

Sugestão: 1 salmo ou 1 capítulo do Evangelho por dia. Comece sempre pelo Novo Testamento no caso de querer ler do início ao fim, pois Jesus é a chave de leitura da Bíblia (Lc 21, 27). Se quiser um método de leitura para ajudar (clique aqui).

5ª Pedrinha – PENITÊNCIA – Você faz algum jejum ou abstinência?


Sugestão: a regra é que toda sexta-feira é um dia obrigatório de abstinência em que não se pode comer carne vermelha segundo os cânones 1249 a 1252. Posso comer no lugar peixe e ovos? Sim.

Se essas pedrinhas estiverem nas mãos dos católicos, não só o Ano do Laicato sairá do papel, como também teremos uma Igreja em saída, como luz do mundo e sal da terra, para renovar o Brasil.

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