sábado, 27 de outubro de 2018

O lugar da modéstia



          Antigamente, nossos avôs e bisavôs nos corrigiam quando vestíamos uma roupa que “não era de Missa”, por ser curta, decotada ou colante. Hoje contamos nos dedos de uma mão os pais que percebem que determinados tipos de roupa ofendem à dignidade do Templo, à Casa de Deus. Os padres, que notam esses abusos, ficam com medo de magoar alguém ou perder fiéis, e preferem se calar no lugar de agradar a Jesus Cristo (Gl 1, 10). “De cara” queremos expor, talvez pela primeira vez, que o ensinamento tradicional da Igreja nesse assunto não se restringe à “roupa de Missa” e à “roupa fora da Missa”.

Uma desculpa que a maioria das pessoas recorre “de forma piedosa” consiste em: Deus olha o coração, as roupas são uma questão secundária. Será verdade? Após a desobediência de Adão e Eva, o pecado entrou no mundo. O salário do pecado é o sofrimento, a morte física e, ao final, a condenação eterna. Os homens, depois da Queda, foram contaminados pela concupiscência, ou seja, estão inclinados ao mal, ao erro, ao engano. Desejam de fato fazer o bem no dia a dia, mas acabam praticando o mal que rejeitam (Rm 7, 19). Esse é o triste estado do ser humano decaído. A morte de Cristo na cruz nos purificou do pecado original e dos pecados capitais, como também deu-nos a graça para vencer os pecados pessoais (2Cor 12, 10; Fl 4, 13), embora a concupiscência permaneça. Por esses motivos, é possível alcançar a santidade.

Dito isso, vamos para águas profundas... Será mesmo que Deus está preocupado só com o nosso interior? A resposta é não. Tão logo Adão e Eva desobedeceram, eles notaram que estavam “nus” e se cobriram com folhas de figueira (Gn 3, 7). Apesar dessas vestes improvisadas, permaneceram envergonhados e se esconderam (Gn 3, 9-10). Deus também não achou essas vestes adequadas, preparando em seguida “túnicas de peles e os vestiu” (Gn 3, 21). O Criador sabia que, a partir de então, as roupas se tornariam necessárias para evitar a concupiscência dos olhos, assim como que essas roupas deveriam ser modestas, isto é, cobrir as partes do corpo[1] que despertam o olhar malicioso no próximo (Mt 5, 28).

As pessoas, que usam roupas indecentes, sabem o efeito que causam aos outros. Dessa forma, tanto os homens quanto as mulheres devem se vestir com “trajes honestos” (1Tm 2, 9). Os pais devem ser os primeiros a não escandalizar os próprios filhos com seu mau procedimento (Mt 28, 6). O motivo principal de guardar a modéstia é porque Deus está perto (Fl 4, 5). A veste do corpo também permite conhecer quem é a pessoa (Ecl 19, 27), ou seja, se ela ama ao próximo ao ponto de renunciar a uma roupa que pode levá-lo à ruína espiritual. Isso é amor que brota do coração. Isso é amor que vira boas obras (1Jo 3, 18).

Ninguém tem o direito de ser pedra de tropeço para o outro, ainda mais se for para satisfazer um capricho, um interesse vil e um desejo egoísta “de se sentir bem”, “de estar à vontade”, enquanto essas atitudes dificultam a luta do próximo em manter o brilho da pureza (Sb 4, 1). A alma que guarda a castidade tem valor inestimável aos olhos de Deus (Ecl 26, 19-20), ao passo que a alma que impede outras de seguirem esse caminho, é saqueadora da graça divina. Ela não atravessa a porta estreita, tampouco dá passagem aos demais (Mt 23, 13; Mt 7, 13-14). Os que pertencem de verdade a Nosso Senhor crucificaram a carne e os vícios (Gl 5, 24).

Um Inferno é pouco para quem possui atrás de si uma corrente que arrasta dezenas e centenas de almas aos pecados da carne. Tão facilmente esse mal poderia ser extirpado: bastaria abandonar essas roupas da perdição e colocar vestes dignas de filhos de Deus! Não só debaixo do Templo de pedra a modéstia tem seu lugar, a modéstia tem seu lugar sempre. Depois do Batismo, todo católico se tornou templo do Espírito Santo (1Cor 6, 19), pedras vivas (1Pd 2, 5). Ai de quem destruir esse templo com a falta de modéstia, Deus mesmo o destruirá (1Cor 3, 17)!

Alguns preferem expulsar o Espírito Santo e conviver com os demônios por míseros pedaços de pano. O Batismo desses infelizes é como a porca lavada que volta a se revolver na lama (2Pd 2, 22). Os apelos de conversão se transformam em pérolas esmagadas por cascos (Mt 7, 6). Nossa Senhora avisou à Santa Jacinta, vidente de Fátima: “Vão aparecer modas que ofenderão muito ao meu divino Filho”.


[1] Os parâmetros tradicionais são: nenhum tipo de roupa colante; shorts ou bermudas, no mínimo, até os joelhos; nada de decotes, partes descobertas ou camisetas; as mangas cubram pelo menos os cotovelos. Essas regras valem para ambos os sexos, com o acréscimo de que Deus abomina um homem que se vista como mulher, e vice-versa (Dt 22, 5). Vestidos e saias com quatro dedos de tecido depois dos joelhos, porque sobem quando se senta.